terça-feira, 9 de novembro de 2010

Rajshahi - Parte 2

A neurose do álcool gel e de lavar as mãos a cada duas horas ainda não passou. No interior adicionei uma terceira paranóia ao cotidiano: repelente. O intérprete diz que não tem um caso de malária aqui nessa região há muito tempo, mas tem muita dengue. Observando a redondeza por cinco minutos pude perceber que cada casa tem a sua criação particular de dengue – impressionante como tem poça, lago, lodo, musgo, água e mais água por aqui. Não posso ter dengue. Já tive uma vez no Brasil, no ano passado. Não quero testar a segunda vez logo aqui.


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Notei que os diálogos em Bangla são sempre muito longos. Eles ficam conversando por cinco minutos e eu pergunto ao intérprete: “qual foi a resposta dele”? O intérprete diz: “essa branch não teve nenhum inadimplemento de um dia sequer nos últimos três anos”. Eu digo, “mas demorou tudo isso para contar que não tem problema”?

“É Marina, na lingua Bangla nós falamos muito para falar pouco”.

Isso quer dizer que eles se expressam muito bem ou muito mal na língua mãe? Para constar, tem prêmio Nobel de Literatura nascido aqui em Bangladesh.


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As pessoas em Bangladesh “mascam” uma folha que chama “PAAN”. Tirei fotos das plantações – o intérprete me levou. Parece que há outras formas de se usar PAAN: no chá e no cigarro. Perguntei se dá barato. O interprete disse que dependendo da forma como se usa, sim. Todos que mascam PAAN ficam com os dentes vermelhos. Eu já tinha visto alguns sorrisos avermelhados até então e ficava me perguntando o que poderia ser. Segundo o intérprete, PAAN ajuda na saúde e é considerado uma boa prevenção ao câncer. Definitivamente não há como eu checar essa informação, mas notei que até os pequenos de menos de um ano têm sorriso vermelho por aqui. Se dá barato, temos uma geração de alucinadinhos sendo criada aqui.
 
Foto de uma plantação de PAAN que visitamos na vila ...
 
 

Rajshahi - Parte 1

A viagem foi melhor do que eu esperava. O ônibus tinha ar condicionado (um luxo aqui) e não estava lotado. O motorista foi tão cuidadoso quanto um motorista de ônibus consegue ser por essas bandas, e depois que nos afastamos de Dhaka e dos subúrbios mais próximos o trânsito melhorou muito. Na viagem toda levei apenas dois sustos (um rebanho de cabras e um caminhão conmpletamente na contramão), o que foi excelente para as minhas expectativas alarmistas.

É bom ter o intérprete comigo. Ele é meio que uma babá multi-uso: ajuda a escolher os pratos nos restaurantes, faz os pagamentos devidos (todo dia eu dou algumas takas para ele, já que eu pago as minhas despesas e as dele também), age como guarda-costas, fala onde posso ir e que água posso beber (sempre mineral, claro), explica (ou tenta explicar) as razões e os motivos de alguns costumes e folclores exóticos locais, adora falar do Barack Obama (ele é um ídolo aqui) e de vez em quando fala sobre a noiva que morreu no ano passado.

Eu tinha achado o meu intérprete meio sério e impaciente no primeiro dia em que o conheci. Na verdade ele é um pouco triste mesmo. Paciência ele tem de monte. Responde todas as perguntas que eu metralho, dia e noite. O intérprete chama Younus (diferente do fundador do banco, que chama Yunus). Contarei dele e da noiva falecida mais para frente.

O caminho para cá também foi uma boa surpresa. Bonito. Calmo. Quase bucólico, não fossem as dezenas de pessoas amontoadas nas rotatórias da estrada, no meio do asfalto ou enlatados nos ônibus que, sempre buzinando, nos ultrapassavam ou dos quais tivemos que desviar no sentido contrário da estrada. Também passamos por três caminhões virados, aparentemente sem vítimas fatais, com todas as mercadorias espalhadas pela estrada. Os caminhões tinham uma coisa em comum: coloridos. Em cada acidente, uma pequena multidão olhando tudo: povo curioso, que em público olha muito e fala pouco.

Deixamos para trás um cachorro marrom claro esmagado (como em desenho animado, colado na estrada), dois pedágios, arrozais, rios, pântanos, flores, palmeiras, bambuzais e pequenas vilas. De vez em quando podíamos notar alguém dando banho em uma vaca, ou tocando um rebanho de carneiro ou de cabra. Um molequinho pelado, de uns cinco anos, brincando com um bezerro preguiçoso que teimava em ficar deitado, um homem velho, barbudo e muito magro de sunga branca bengali pescando num rio verde gosmento, pessoas tomando banho de roupa no mesmo rio nojento, e vários surfistas de ônibus e caminhões.

O ônibus fez uma parada para esticarmos as pernas, usar o banheiro (experiência inédita, pois era no chão!) e tomar alguma coisa. Eu tomei uma Pepsi quente (não tinha Coca-Cola), o intérprete tomou um chá com leite e voltamos para nossa viagem.

Ainda não entendi qual é a graça de tomar chá com leite. “Pegamos esse hábito dos ingleses”, me disse o intérprete. Além do cricket e do chá, acho que a sociedade bengali não herdou mais nada dos ingleses. Digo isso com todo respeito a ambos os lados. Uma vírgula importante: os chás aqui são divinos, fervidos quase sempre com gengibre e adoçados com melaço. Eles adoram dizer que os chás deles são muito melhores que os chás ingleses.

No posto perguntei ao intérprete porque várias crianças de colo tinham a mesma manchinha no rosto – eu já estava começando a achar que era algo da genética da região – muitos bebês com uma pinta preta de uns dois centímetros, no lado alto esquerdo da testa.

Ele riu ...

“Os pais acreditam que essa pintinha no alto da testa do bebê afasta mau-olhado” .... “Hum”. Entendi. “Então eles colam uma pintinha fake no rosto para proteger o bebê”?

“Sim”.

Tá certo.

Chegamos na sede do Grameen no início da tarde. É um prediozinho simpático de dois andares, super simples. A maioria das outras casas na vila é de barro, palha, madeira. Estou hospedada no primeiro andar. Divido o banheiro com o meu intérprete – detalhe desagradável. O branch manager e sua esposa moram aqui também.

O intérprete disse que eu não devo sair na rua sem ele e sem estar coberta. Vou me fantasiar para passear. “Aqui na vila o pessoal é mais conservador”.

A vila tem o charme máximo que uma comunidade bengali pobre consegue ter. O ar é bom de respirar. As casas são super simples, mas são bem cuidadas e limpas. Tem tudo quanto é bicho nas ruas, inseto que não acaba mais, galinha, pato, vaca, cabra, carneiro, cachorro, gato, passarinho, corvo. Não vi um cavalo sequer ainda nesse país .... o intérprete diz que cavalo custa caro e dá trabalho para cuidar ... “com o tempo eles morrem, nós não sabemos cuidar”. Tem bicicleta, motocicleta, rickshaws e outros veículos misturados, meio carroça, meio rickshaw, meio bicicleta, que são “pedalados” por um coitado magricela que carrega carga ou gente atrás. Muitas plantações de arroz e cana, bananeiras, manga, mamão, cebola, palmeiras, além de fabriquetas de melaço. Apesar da ultra-simplicidade de tudo, nitidamente as pessoas vivem melhor aqui do que em Dhaka. O intérprete concorda comigo: “No norte do país existem algumas regiões bem mais pobres que aqui, onde as pessoas ainda passam fome e não têm o básico para se manter, mas aqui é muito melhor que Dhaka”.

A esposa do branch manager é a nossa cozinheira. Ela chama Dalia, tem 26 anos, mas parece um pouco mais. O primeiro almoço estava espetacular. Frango ao curry, arroz e abobrinha. O intérprete comeu com a mão. Eu comi com garfo, usando a mão direita. Ele disse que não se importaria se eu exercesse a minha “canhotice” e comesse com a mão esquerda, minutos depois de me contar que quando a noiva morreu ele passou a ser uma pessoa muito religiosa e mais tradicional. Fiquei com medo de ofender.

Depois do almoço tirei fotos, conversei com o staff local, conheci as mulheres amigas da Dalia (todas sorridentes e curiosas – Shewly e Jahana foram as que mais ficaram apegadas a mim – uma de 14 anos e a outra de 60), acompanhei o desembolso de alguns empréstimos na sede, falei de futebol com todo mundo (sei que sou repetitiva nesse assunto, mas esse povo é fanático por futebol e por Brasil – e todos falam mal do Dunga) e fui para o quarto ler o monte de material que eu recebi do Grameen. Mais material. Não falta procedimento e manual aqui. Bom, estamos falando de um banco, afinal de contas. Vivo me esquecendo disso.

Tentei de todas as formas estabelecer uma conexão com o mundo exterior, via internet, mas não será possível. Estou fora da rede por oito dias. O telefone do Brasil pega. Meu chip de Bangla deu problema. Só vou conseguir meu número local quando voltar para Dhaka.

Tem barulho de sapo e cigarra lá fora. No teto juro que posso escutar o caminhar apressado dos ratos e das baratas (mas isso tem em NY também, certo?). Meu quarto tem chão de cimento, uma cama de ferro, um colchão de dois centímetros de profundidade, uma rede azul contra insetos, duas janelas (apenas uma delas com cortina), um ventilador de teto e só. Não tem móvel e às 6 da manhã, com o sol a pino, vai ter luz infinita aqui dentro. Inventei meu armário em cima da mala e roubei uma cadeira da sala de almoço para colocar meus apetrechos eletrônicos e assessórios de banheiro.

Não tem toalha de banho aqui. Eles esqueceram de dizer que eu precisava trazer. O intérprete foi comprar uma na vila e voltou agora. Na verdade é uma flanela vermelha, meio desfiada, de uns 60 centímetros. Não tive alternativa: improvisei uma toalha com um dos xales que eu trouxe para cobrir o cabelo. Já sinto falta do banho do hotel.

Como é tudo de pedra e cimento aqui, o céu é sempre azul e nunca chove, vou fechar os olhos e imaginar que estou no Kirini de Santorini, na Grécia.


Achei que podia poupar todos da foto do banheiro ...

Abaixo, foto da Dalia (laranja) e das amigas que sempre iam me visitar ....





 
 
E algumas fotos da vila e das pessoas que moram lá ...
 
 









Retorno de Rajshahi

Durante os 8 dias que estive no “exílio” em Rajshahi, sem acesso a internet, conheci muitos vilarejos e tirei mais de 2.000 fotos. Meu dia começava cedo, às seis da manhã. Todo dia banho gelado, café da manhã perto das oito, e logo saíamos (eu e o intérprete) para conhecer as clientes do banco e participar das famosas reuniões de mulheres. Eu era a única estrangeira no vilarejo. Alguns visitantes internacionais ficaram em Dhaka, outros foram para outras regiões.

Voltávamos para o banco perto do meio dia, almoçávamos, conversávamos, passeávamos um pouco pela redondeza, e voltávamos para estudar e discutir o método Grameen. Depois de umas duas ou três horas de “aula”, voltávamos ao campo, para visitas às residências e aos negócios de alguns clientes. O jantar era servido cedo, entre sete e oito da noite. Às nove eu já estava no meu quarto, lendo ou escrevendo, e antes da onze as luzes apagavam (muitas vezes bem antes disso, por conta dos blackouts, que eram muito mais freqüentes lá do que em Dhaka. Em Rajshahi ninguém tem gerador, só lanterna e vela).

Conheci mulheres e crianças e escutei a história de vida de muitas delas. Alguns homens tomaram coragem e vieram conversar comigo também. Voltei mais leve para a cidade. A mala também. Ficaram 2 pequenos potes de hidratante e 1 shampoo que eu trouxe comigo (e que as mulheres do vilarejo nunca tinham visto e quiseram experimentar), uma máquina fotográfica velha que eu tinha trazido por precaução (dei para o intérprete, cujo sonho era ter uma máquina, mas não tinha dinheiro para comprar), dois repelentes (acabei com eles no meu exagero para evitar dengue e malária), todo o meu dinheiro como caixinha para as pessoas que me ajudaram na casa em que eu estava hospedada e para os meninos que me guiaram pela redondeza e pedalaram os seus “bici-táxi” para me levar de lá para cá, e as comidinhas que eu tinha levado na viagem de ida e que eu acabei deixando de presente para meus anfitriões.

Aprendi a fazer melaço, a falar algumas expressões em bangla e a usar talher na mão direita. Entrei por engano em um ninho de morcegos que vive em uma mesquita abandonada. Fiz um bom amigo - o intérprete, uma tatuagem de rena nas mãos e passei “mehedi” nas unhas (uma tinta vermelha natural que a mulherada fez questão de me fazer experimentar – ficou horrível). Em algumas semanas sairá tudo. Voltarei civilizada para São Paulo, não se preocupem.

Os relatos dos próximos posts foram escritos nas noites da minha viagem e contam um pouco dos meus dias na pequena vila de Ghopapara, divisão de Rajshahi, onde fiquei hospedada em uma branch do Grameen chamada Geupara Puthia. Essa branch atende um pouco mais de 3.100 pessoas e há alguns anos não tem inadimplência. Ou seja, todo mundo paga em dia. Isso mesmo, 100% de bons pagadores.

Geupara Puthia fica a 150 km da fronteira com a Índia, a 50 km do Himalaia e a quase 300 km de Dhaka. A natureza do lugar é lindíssima. Dhaka parece um tanto quanto esquizofrênica depois de viver uma semana no interior de Bangla. Já sinto falta do ar fresco de lá. O hotel, no entanto, parece o melhor hotel de todos em que já me hospedei, bem diferente da impressão que eu tive há 13 dias atrás, quando cheguei em Dhaka. Tudo nessa vida é relativo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Fechando as malas

Tudo pronto para a minha viagem para Rajshahi.

A mala deveria ser pequena, mas não consegui ser muito concisa. Deixo no hotel 10% apenas das coisas que eu trouxe para Bangla. O resto vai comigo.

Vai também comigo alguns contrabandos alimentícios:
  • pringles
  • bolacha óreo
  • kitkat
  • lata de amendoas
  • diet coke (2 latas que eu consegui comprar no hotel)
  • água (uma garrafa para a viagem)
  • 1 banana (para a viagem)
  • cream cracker
  • bolacha maria
  • mentos
  • chiclete!
É isso. Dou notícias assim que possível.

Pai, mãe, Fi, não se preocupem!

Insônia

Quem me conhece bem sabe que dormir não é exatamente o meu forte. Pois bem, quarto dia seguido de sono leve aqui em Bangladesh. Hoje eu acordei ainda mais cedo do que nos outros dias. São 3:30 da manhã e despertei como se tivesse dormido 10 horas non-stop. Em uma hora eu estarei com sono novamente, mas lembrei de algumas coisas que eu não tinha registrado no post de ontem e que valem a pena ser divididas .... vamos lá ... afinal de contas, tenho uma estrada de 7 horas para dormir durante o dia hoje ...

Bangladesh tem 7 "estados", que eles chamam de "divisions":
  1. Barisal (বরিশাল Borishal)
  2. Chittagong (চট্টগ্রাম Chôţţogram)
  3. Dhaka (ঢাকা Đhaka)
  4. Khulna (খুলনা Khulna)
  5. Rajshahi (রাজশাহী Rajshahi)
  6. Sylhet (সিলেট Sileţ)
  7. Rangpur (রংপুর Rangpur)

As divisions são divididas em 64 "distritos". Os distritos são divididos em sub-distritos (mais de 400). Cada division, distrito e sub-distrito é comandado por níveis diferentes de políticos, que, segundo o Zachary, são eleitos pelo povo. Além dos políticos que comandam os distritos e outras subdivisões, Bangladesh tem um parlamento de 300 pessoas, também eleitas pelo povo, e um primeiro ministro eleito pelo membros do congresso.

As divisões, sub-divisões, eleições, regras e outras curiosidades locais não têm sido muito eficientes na governança desse país. A sensação que eu tenho depois de alguns dias nessa terra é que há mais ONGs e estrangeiros preocupados com esse lugar do que o próprio governo. Aliás, a sensação que dá é que o governo não faz o mínimo, ou nada, para melhorar a condição de vida das pessoas daqui.

Zachary me disse que quem ganha acima de 100 mil takas por ano aqui paga imposto. A primeira alíquota do imposto de renda é 10%. Como no Brasil, dependendo da renda anual, o cidadão paga uma alíquota maior. Parece que a alíquota mais alta é por volta de 30% (o Zachary não sabia ao certo). Não sei para onde vai o dinheiro desses impostos. De qualquer forma, não sei se alguém chega nos patamares para pagar imposto .... Mas, de novo, grande parte dessa gente não tem RG e o governo nem sabe quem eles são.

Iniciativas como as do Grameen Bank são bacanas, visionárias, impactantes, um sucesso, mas dos 150 milhões de pessoas que existem aqui (ainda não sei onde os ricos moram, até agora só vi muita miséria) ele consegue afetar a vida de 8 milhões.

Não me levem a mal. 8 milhões é incrível. É extraordinário. Mas existem algumas dezenas de milhões de pessoas esquecidas no meio do lixo e da pobreza. Eu sei, eu sei, tem a questão religiosa, cultural, política, histórica ... mas em 2010 não deveriam mais existir lugares como esse. O que é que eles, nós, todos, estiverem fazendo por esse povo, não é suficiente.  Segundo as minhas conhecidas ONGeiras, há alguns poucos países na África que são um pouquinho piores que aqui. Não consigo imaginar. Preciso viajar mais para o interior do Brasil para ter certeza que não impomos ao nosso povo condições semelhantes de vida que se observa aqui.

Bangladesh parece um universo paralelo ao nosso, no qual as pessoas vem tomando decisões erradas há tanto tempo, que a realidade que eles construíram nos últimos anos e se baseiam hoje é uma Matrix diferente da nossa. Não que a nossa seja perfeita, mas aqui falta o básico do entendimento sobre a vida.

Uma das preocupações do Grameen Bank ao emprestar dinheiro para as mulheres é "ensinar sobre a vida", para que elas possam ser saudáveis e possam educar seus filhos de uma forma saudável. Quem entra para a família do Grameen Bank tem que obedecer 16 regras aqui em Bangladesh. Algumas regras de que me lembro são as seguintes:

  • prometo manter minha casa limpa
  • prometo ter uma "latrina" que dê o mínimo de higiene para minha família
  • prometo colocar meus filhos na escola
  • prometo não vender minhas filhas em casamento e aceitar dotes em troca de filhas mulheres
  • prometo cuidar do meu vizinho
  • prometo ajudar os membros do Grameen Bank quando eles estiverem em dificuldade
  • prometo ferver água antes de beber
  • prometo plantar sementes na época adequada da lavoura
Ver o que aquelas mulheres da aldeia que eu visitei ontem conquistaram, nesse ambiente completamente insano, é chocante. A alegria e o sorriso delas, não sei de onde elas tiram vida para isso.

Vou voltar para a cama.

p.s. o intérprete me ligou ontem de noite para dizer que conseguiu um número de telefone bengali para mim! Assim, apesar de estar sem conexão de internet nos próximos dias, terei uma forma para me comunicar com os meus queridos aí no Brasil

Fotos de Dhakuli Manikgonj Branch




Dhakuli Manikgonj Branch

Saí do hotel hoje às 6:45 da manhã. O Kamal estava me esperando com um sorriso no rosto (imaginando como ele iria gastar as 1.400 takas que ganharia hoje, com a minha ida e volta do banco).

Na porta do hotel conheci por acidente duas gringas (uma do Canadá e uma da Austrália) que estavam indo para o Grameen. Ofereci carona. Elas toparam. Fomos os 4 para o outro lado da cidade, todo mundo mudo. Eu, com sono, as gringas com vergonha de mim, o Kamal não fala inglês e ainda era muito cedo para o telefone dele tocar. O som ambiente era formado apenas pelas buzinadas do Kamal e dos poucos carros que estavam nas ruas.

Primeira surpresa: não tinha trânsito. Aqui em Dhaka o rush hour é entre 9:30 e 11:30 da manhã. Também não entendi. O pessoal começa a trabalhar tarde (e param cedo, para ser sincera). Chegamos em 20 minutos no Grameen. Detalhe: o mesmo percurso ontem me levou mais de uma hora pela manhã e quase hora e meia no final do dia.

Segunda surpresa: as duas gringas estavam no meu programa do dia. Embarcamos as 3, o Zachary e um motorista doido para uma branch do Grameen que fica em Manikgonj Zone (60 km de Dhaka). Como estavam todos silenciosos no carro, só descobrimos o destino comum ao embarcar na van do Zachary. Uma chama Tracy e a outra eu não gravei. Também não sei até agora qual é a mulher do Canadá e qual é a Australiana. O pior é que as duas trabalham em ONGs pelo mundo e contam histórias parecidas. Não são casadas, não têm filhos, são loiras e têm olhos azuis. Não consegui registrar nenhuma das duas de forma independente. Para mim, elas são as ONGeiras gringas, que já moraram em mais de 50 países (é o que elas dizem).

Eu achei que tinha entendido o que era trânsito caótico nos últimos dias, mas tudo o que eu tinha vivido até agora não se compara com a experiência de viajar em uma estrada de Bangladesh. As pistas são simples e vejo carros, caminhões, ônibus, animais, gente e lixo em todas as direções. Não há uma mão da ida e uma mão de volta. Existe apenas o trecho do asfalto e tudo e todos andam em todos os espaços disponíveis da estrada, literalmente desviando um do outro. As placas no caminho são chocantes (traduções literais - não consegui tirar fotos):

"Reduza a velocidade para não matar vidas"
"Use a pista da esquerda de preferência"
"Não mate nas estradas"

Todos buzinam, se xingam, entram no caminho uns dos outros, ultrapassam por todos os lados e usam o acostamento como a mão que lhe for mais conveniente no momento.

Pergunto ao Zachary:

"Qual a idade mínima para tirar a carta aqui em Bangladesh?"

"18 anos", ele responde.

"E vocês precisam fazer uma prova para tirar a carta"?

"Claro", ele responde.

"E todos fazem a prova e tiram carteira de motorista antes de dirigir na estrada"?

"Ah .... isso não. Uma coisa é o que a lei diz. Outra coisa é o que as pessoas fazem, Marina. Aqui a maioria das pessoas tem carteira de motorista falsificada. Se a polícia para, eles pagam um café e são liberados".

O Zachary me respondeu isso com a maior tranquilidade do mundo. As gringas e eu nos olhamos e ficamos mudas. Mais um pouco.

Depois de mais de duas horas na estrada, percorremos os tais 60 km e chegamos no nosso destino.

Conversamos com o pessoal do Grameen que trabalha no vilarejo e em seguinda fomos a uma reunião de mulheres (todas as clientes do Grameen encontram-se todas as semanas para contar o que fizeram com o dinheiro emprestado pelo Grameen até então, para pagar o juro do empréstimo devido naquela semana, para fazer o depósito da poupança compulsória e para solicitar novos financiamentos, quando for o caso). Não se preocupem que ainda vou dedicar um capítulo inteiro do blog para contar os detalhes da metodologia Grameen Bank....  

Enfim, passei o dia no vilarejo escutando histórias das mulheres que tomam empréstimo com o Yunus há mais de 10 anos. Uma delas pegou o seu primeiro empréstimo há 18 anos. Hoje tem 3 casas, 2 filhos na faculdade, alguns hoteis na redondeza e diz que, depois que começou a ganhar dinheiro, é respeitada pelo marido, pelos filhos, pelos vizinhos e pelas amigas. Fui na casa de várias delas, conheci os maridos (todos orgulhosos das esposas), os filhos, tirei fotos feito uma maluca, ganhei 3 frutas locais (parecem um pequeno coco) e visitei um gerador de energia caseiro, que funciona com esterco de vaca (incrível) (?!). As mulheres têm histórias diferentes, resultados diferentes, dramas diferentes, mas todas são impressionantemente sorridentes, amáveis, fortes e otimistas. Ainda estou meio passada com o dia de hoje e em outro momento conterei mais detalhes sobre elas.

A volta para Dhaka foi tão emocianante quanto à ida. Fiz reuniões com o time da administração até o final do dia e o Kamal foi me buscar às 5:30 da tarde. Fiquei uma hora e meia no trânsito. Estou exausta. Preciso arrumar minha mala. Amanhã vou para um lugar que fica bem longe daqui: 7 horas de viagem. Ficarei uma semana morando nesse vilarejo que fica em Rajshahi. Vejam no mapa, é incrivelmente longe de Dhaka ...! Lá não tem luz, não tem internet e, segundo o Zachary, não tem malária ou "dengue fever".

"Mas leva o repelente Marina, just in case". Sei ...

Ainda não sei porque eu topei ir para esse "acampamento bengale". Afinal de contas, já estou no maior acampamento de todos. Mas o pessoal do Grameen insistiu, disse que eu preciso ir até lá para entender a filosofia do Yunus ... então, aqui estou eu, me apressando para acabar o relato de hoje, pois ainda preciso arrumar muita coisa antes de viajar.

Vou deixar a maioria das minhas coisas no hotel. Kamal vem me buscar às 7 da manhã. Meu ônibus sai às 8:30. O intérprete vai junto.

Não sei se vou conseguir mandar notícias de Rajshahi. Se eu não atualizar o blog (por impossibilidade tecnológica), volto na semana que vem com as fotos e novidades dos próximos dias.


chegando no vilarejo

Fotos do dia de hoje seguem no próximo post!