terça-feira, 9 de novembro de 2010

Rajshahi - Parte 9 - Kafuria Natore

Fizemos uma pequena viagem hoje, para entrevistar uma outra branch do Grameen na divisão de Rajshahi, chamada Kafuria Natore, que fica há uns 40 minutos daqui. Eles atendem 3.155 pessoas, e a taxa de inadimplência lá é de 0.03% (acho que no Brasil eles arredondariam isso para 0%, mas aqui 0.03% é um número que conta).

A viagem foi uma aventura e quase morremos algumas vezes. O povo de Bangladesh está tão acostumado a tomar risco, que eles nem entendem mais a diferença entre uma situação de risco de vida e uma situação de risco de chegar atrasado em algum lugar. Acho que aqui é tudo mais ou menos arriscado de forma padronizada: você pode se atrasar, ou ser atropelado, ou atropelar um monte de criança na estrada, ou matar um cachorro, ou virar a carga na estrada, ou nada disso: chega são e salvo no seu destino final. E parece que qualquer resultado para eles está bom. Não sei não, mas as estatísticas desse lugar definitivamente trabalham para o benefício das pessoas.

Conheci a Seara hoje. Uma senhora que parece ter 60 anos, e, como muitas outras aqui, não tem noção de quantos anos tem. O pessoal do Grameen disse que ela tem entre 45 e 50 anos. A Seara é um exemplo de cliente do Grameen que ainda não conseguiu ter um negócio bem sucedido e não vai tão bem como outros mutuários. Ela está com o Grameen há 21 anos. Quando entrou para o banco, antes de casar ainda, começou a produzir cebola e arroz e sua vida começou a melhorar. Casou-se, teve dois filhos: uma menina e um menino. Colocou os dois na escola e os dois terminaram os seus estudos. Nem a Seara, nem o marido dela, já falecido, foram para a escola. Seus filhos foram os primeiros na família a conseguir estudar (por conta dos empréstimos do Grameen). A menina foi “casada” pelos pais e mudou-se para longe, onde o marido mora. O marido da filha não deixa ela visitar a mãe e faz anos que a Seara não tem notícias da filha. O marido da Seara morreu há 10 anos e o filho de 25 anos não trabalha. Ela sustenta a casa e o filho vagabundo, e gastou todas as suas economias antes do marido morrer, com o tratamento médico. Não conseguiu estabilidade financeira depois disso. O Grameen continua emprestando, ela continua pagando em dia, mas não sobra muito para melhorar de vida. Hoje a Seara cria galinhas e patos e vende os ovos. E sustenta o filho vagabundo.

A Amena tem algo como 50 anos. Ela também não sabe quanto anos tem. Amena casou-se com um homem que tinha 5 filhos com uma outra mulher falecida. Amena e ele tiveram mais 10 filhos juntos. Ela passou a vida cuidando de 15 crianças, porque o marido morreu quando todos ainda eram jovens. Com a ajuda do Grameen ela colocou todo mundo na escola, casou as filhas (e segundo ela gastou todas as suas economias com o casamento de 7 meninas). Um dos filhos é muito doente e é o único que ainda vive com ela, todos os outros se casaram. Não entendi qual o problema do moleque, mas basicamente entendi que metade do tempo dela ela fica ao lado dele, ajudando com as necessidades mais básicas. Por conta disso, ela não consegue trabalhar tanto quanto gostaria e não consegue melhorar de vida. Apesar disso, a Amena tem 3 refeições diárias, tem cabras, galinhas e uma vaca e casa própria. Paga suas prestações com o Grameen em dia e os outros 14 filhos ajudam ela a manter a casa.

O branch manager da Kafuria Natore me disse que muitas mulheres clientes do Grameen somente prosperam e desenvolvem negócios lucrativos quando seus maridos as deixam ou morrem (?!!!! - não resisti e precisei dividir isso com vocês). A cultura e a religião predominante desse país, que segundo o intérprete (e eu concordo) é mal entendida e mal aplicada pelos mais simples e ignorantes, arrasta essas mulheres para a miséria. Alguns maridos ainda não deixam suas mulheres trabalharem (em todas as gerações, não apenas os mais velhos), outros pegam o dinheiro do empréstimo do Grameen e gastam com bobagem, outros usam as mulheres como “laranja” para pegar empréstimo para eles no banco e na verdade eles tocam os negócios da família.

“Vocês não podem começar a educar esse povo e a fazer eles entenderem que não está certo esse comportamento?”

“Não. Tomamos a decisão de não enfrentarmos os costumes dessa forma, pois começaríamos uma guerra política e religiosa contra nós. Temos que ter paciência. Hoje é muito melhor do que há 30 anos. Em mais 30 anos chegaremos onde queremos”. E dá-lhe paciência.

***

Saldo final de palavras em Bangla que eu aprendi a falar até agora (além do grito de gerra do Grameen):

Obrigada - Dhoonnobadh

Meu nome é Marina – Amar nam Marina

Sou do Brasil – Amar desh Brasil

I Love you –Ami tomake bhalobashi

How are you? Tumi kemon aso

I am fine – Ami bhalo asi

I am hungry – Ami khudharto

I do not know how to speak Bangla – Ami bangle janina

Também aprendi a contar de 1 a 10 ...

Não existe uma palavra que significa bom dia ou olá aqui. Então aprendi uma expressão em árabe, que todo mundo usa:

Assalamu Alaykum

Rajshahi Parte 8 - Mais Fatos e Casos

Hoje no caminho para a mesquita atropelamos um cachorro. O carro desgovernando que nos conduzia buzinou para quatro cachorros na estrada, eles absolutamente não se mexeram (até porque eles escutam tantas buzinas que não têm noção ou instinto nenhum de como se defender nessas estradas de malucos) e o nosso motorista “carrasco” não teve dúvida: passou por cima. Eu gritei. Todo mundo assustou com o meu grito, mas não com o cachorro sendo esfolado em baixo do carro. Seguimos em frente como se tivéssemos desenganchado algo preso (e sem vida) na lataria do carro. Os homens tentaram me acalmar, dizendo que o bicho tinha sobrevivido, mas eles estavam falando dos outros três que conseguiram se safar. Meu primeiro atropelo de cachorro.

***

Consegui um super deal com o intérprete. Ele me deixará sair com as mulheres, todos os dias no final do dia, para passear, sem ele. O primeiro passeio foi hoje às sete da noite. Já estava um breu e nas ruas da vila não há uma luz sequer. Algumas casas também ainda não têm luz. Todos andam pelas ruas de noite com mini lanternas, para iluminar os respectivos caminhos e não cair em buracos ou pisar no lixo. Dezenas de luzinhas de lanterna piscam e se cruzam pela vila toda. De vez em quando passa um caminhão desgovernado, buzinando, e sempre sou empurrada para o canto da estrada para não ser atropelada (elas me tratam como as crianças de 1 ano – as de 2 anos já têm autonomia para perambular sozinhas).

Visitei as casas de várias mulheres que têm vindo me ver no Grameen. Me apresentaram para seus filhos e parentes. Depois de uns 30 minutos de caminhada, tinha uma pequena multidão nos seguindo. No caminho elas vão me contando histórias em bengali como se eu estivesse entendendo tudo, e de vez em quando me ensinam como falar algumas poucas palavras. E dão risada. As noites aqui são lindas. Muito escuro, muita estrela. "Marina, no Brasil tem estrela também?"

Perguntei para todas elas quantos filhos elas têm e fiquei positivamente surpresa ao saber que a maioria tem um ou dois, algumas ainda estão evitando ficar grávidas, e todas querem colocar os filhos na faculdade. Duas mães disseram que suas filhas não vão casar antes de acabar a faculdade. Santo Grameen.

Falando em filhos, tenho que dizer que a criação de bebês humanos aqui segue outra filosofia, um tanto quanto menos neurótica do que a nossa, paulistanos workaholics. As crianças andam muito cedo, brincam sozinhas enquanto os pais trabalham, nadam com os mosquitos da dengue, estão sempre descalças ou até mesmo peladas e não usam fralda. Até 1 ano elas vivem agarradas no pescoço da mãe (literalmente, elas se penduram e não largam; as mães podem até soltar as mãos que os pequenos continuam empoleirados). Eles choram por 5 segundos, a mãe dá uma olhada e fala um “chiiii” e tá todo mundo quieto de novo. Incrível como nosso mundo conseguiu complicar tanto a criação ... de gente. Aqui eles fazem muito com muito pouco. Alguma coisa eles devem saber sobre isso, pois o que nasce de criança aqui não é brincadeira. E eles estão sobrevivendo, sou testemunha da proliferação.

Rajshahi Parte 7 - Empréstimo para Pedintes

Existe um programa especial de empréstimo no Grammen para pessoas que pedem esmolas. Aqui em Bangladesh pedir esmolas é uma profissão. Tem gente que costura, tem gente que pesca, gente que limpa, gente que planta, e tem gente que pede esmola. E só.


Voltando ao Grameen, eles concedem empréstimos aos mendigos, em valores bem menores (tipo 1000 takas). Os mutuários nessa modalidade de empréstimo não têm prazo para pagar a sua dívida e deles não são cobrados juros. Eu sei, é mais uma doação do que um empréstimo, mas para aqueles poucos que conseguem começar a produzir algo e quebrar o ciclo da miséria total, já é alguma coisa. O Grameen Bank não exige que as pessoas parem de pedir esmolas, pois isso os afastariam do programa.

Hoje eu conheci a Meherjan. Uma senhora que ficou viúva em 1971. Ela não tem dentes e não sabe quantos anos ela tem. Eu chutaria uns 80, mas pode ser menos, pois as pessoas aqui parecem 10 anos mais velhas do que elas realmente são.

Desde que a Meherjan perdeu o marido, ela começou a pedir esmolas, pois tinha 4 filhos para cuidar e não conseguia arranjar emprego. Vem fazendo isso há 39 anos. Pegou o seu primeiro empréstimo com o Grameen há 1 ano: 1.000 takas. Com o dinheiro ela comprou uma cabra e fez algumas reformas na casa. A cabra dela deu cria e hoje ela tem 3 cabras. Ela vai esperar o rebanho crescer, para começar a ganhar dinheiro com a criação.

“A senhora pretende parar de pedir esmolas no futuro e viver apenas da criação de cabras”?

“Não, eu não tenho capacidade para viver apenas desse trabalho. Eu não sei fazer conta, estou velha, e tenho que tomar conta da minha neta”, diz ela apontando para uma menininha linda, cabelo raspado como menino, que entra toda tímida na nossa sala e logo se aconchega no colo da avó.

A menina é saudável, mas deve ser a mais magricela que eu vi aqui no interior até agora. Na cidade tem um monte como elas, mas até agora eu só tinha visto crianças super saudáveis pela redondeza.

A menina chama Nojiba e tem 5 anos. É alta para a idade. Vou buscar um pacote de bolacha e dou pra ela. Ela demora uns 5 minutos para aceitar. Mais uns 5 minutos para ter coragem de abrir e começar a comer.

“Onde está a mãe dela?”

A mãe dela, filha da Meherjan, separou do marido e casou com outro. Largou a menina com a avó. O pai da menina também casou de novo e a nova esposa não gosta da pequena. “Então, ela veio morar comigo”.

Eu e o intérprete olhamos nossos bolsos e juntamos 700 takas para dar a elas. Claro que não é suficiente e não vai resolver a situação delas, mas fizemos mesmo assim. Elas foram embora em seguida, a senhora fazendo conta com o dinheiro na mão e a Nobija toda feliz, comendo o biscoito e me dando tchau. Vida difícil a pequena Nobija tem pela frente ...

Rajshahi - Parte 6 - Outros Fatos e Casos

Essa semana uma cliente do Grameen fechou a sua conta poupança, pagou o empréstimo em aberto e foi embora. Presenciei o ocorrido, que é uma raridade. Quando uma mulher se junta ao Grameen, costuma pegar novos financiamentos subseqüentemente, para continuar investindo nos negócios, moradia, educação dos filhos e saúde. É uma relação meio que vitalícia, que passa de geração a geração ...

A Hajira, 35 anos, contou ao branch manager que está indo embora com o marido – recém-casada, e não precisa mais trabalhar. Ela não tinha casado até hoje, pois não poderá ter filhos e isso é um mega problema aqui – apesar de não existir mais espaço para novas crianças, a habilidade de procriar é um dos requisitos essenciais de qualquer boa moça que queira se casar. O marido da Hajira ficou recentemente viúvo, já tem duas filhas, e não sem importou em casar novamente com uma mulher estéril, “mais velha”. Ela estava muito feliz. Acho que gostou de finalmente ser a esposa de alguém.

***

Conheci dois homens da vila hoje. Eles são amigos do branch manager e vieram fazer uma visita e conhecer a estrangeira. Os dois se aproximaram, se apresentaram (em Bangla), me apresentei (agora faço uma saudação para dar oi para as pessoas, como no exército – é o costume) e sentaram do meu lado. Conversei com eles com a ajuda do intérprete. Um deles é professor na escolinha local e o outro se apresentou como médico responsável pela vila - o dente vermelho de PAAN. Perguntei: “nossa, médico, que bacana, escola de medicina é difícil?”. Rahim respondeu: “o meu curso foi de três meses e já estou habilitado a ser médico na vila”. Nem pensar em ter uma apendicite aqui. Não me espanta a morte da Jui. O intérprete riu.

Rahim me observou um tempo e perguntou ao intérprete, com uma cara bem da séria, qual o motivo de eu estar escrevendo com a mão esquerda. “Ela tem problema na mão direita? Não consegue mexer?”. Expliquei que era canhota e que eu escrevia sempre com a mão esquerda, mas que a minha mão direita era perfeita, “olha só, acenei para ele”. Ele balançou a cabeça, nitidamente contrariado. Ficou decepcionado com a estrangeira. O intérprete disse que no interior é mais complicado para eles entenderem que usar a mão esquerda não é ponto negativo.

No dia seguinte passamos pela loja do Rahim na vila e ele acenou para nós, todo sorridente, ainda dente vermelho. Paramos para um chá. Aqui todo mundo toma chá, a todo momento, em qualquer lugar. Ele tem uma farmácia!!! Detalhe: a esposa dele que montou, com um empréstimo do Grameen, há 10 anos atrás. Isso é o mais próximo de um médico que existe nessa região. Rahim adorou que paramos lá para conversar. Me deu de presente duas pastilhas de vitamina C (?!!!), me fez provar melaço e PAAN. PAAN é horrível. Não entendi qual a graça dessa planta. Cuspi, todo mundo riu, fui a diversão da tarde. Enquanto eu estava sentada na farmácia do Rahim uma multidão de pessoas parou para me olhar. Mais de 60 pessoas da vila vieram ver a estrangeira. Eles apontaram, riram, uns mais barbudos olharam meio feio, fizeram perguntas e falaram “Pele”, “Ronaldinho”, “Kaka” e “Brasil”. Bangladesh é brasileiro! Já estou me acostumando com os olhares e quando começo a tirar fotos, metade vai embora com vergonha, alguns posam felizes, outros dão risada e se escondem embaixo das roupas.


Nosso médico, de "categoria", todo orgulhoso na sua loja

***

Hoje é sexta feira, mas para o povo de Bangla é sábado. Os finais de semana aqui são na sexta e no sábado. Acho que eu gosto desse esquema. Você evita o bode insuportável de domingo de tarde (já é dia de trabalho aqui) e a segunda feira já está perto da quinta.

O intérprete e eu discutimos Grameen apenas por uma hora e meia hoje e ele se declarou livre de mim, unilateralmente. Foram ele e o branch manager tomar um chá na vila, depois rezar, e não me levaram. Eles não deram opção, então a minha opção foi aceitar a escolha deles, e ficar aqui com cara de feliz. Detalhe: deixaram um officer da branch tomando conta de mim, cuja função única era não me deixar sair na rua sozinha.

A sede do Grameen deve ter uns 400 metros quadrados. Não é pequeno o lugar, mas quando te deixam aqui com duas mulheres que não falam a sua língua e não entendem o seu costume, pode ser um problema. Ficamos uma olhando para a outra (elas sempre rindo de mim) e percebi que elas tinham que ir para a cozinha fazer o almoço. Fui junto. Entrei, pedi permissão (mímica), elas autorizaram, fiquei.

A cozinha bengali, aqui na zona rural, é surreal. Parece que voltamos para a idade média. Elas cozinham agachadinhas, num quarto de 2 metros quadrados, chão batido de barro, com um fogão pequeno à lenha num dos cantos. Panelas, facas, potinhos, potões, temperos. Elas não me deixaram ajudar (honestamente eu não saberia usar nenhum desses utensílios de cozinha), mas ofereci para ser gentil. Fiquei observando tudo, agachada junto, fotografando, chocada com a capacidade delas de picar batata doce com um facão afiadíssimo (parecia que tinha passado por um super processador, de tão perfeito que os legumes ficaram), amassar alho com uma pedra, cortar a carne em cubos perfeitos, preparar o fogo e esperar. O ritmo aqui definitivamente é mais lento... Ninguém tem pressa para nada, todo mundo conversa com calma, depois do almoço a maioria deles tira uma soneca e para ajudar com o ritual do dia: chá, chá, chá.

Os homens voltaram na hora em que o almoço estava ficando pronto. Claro! Chegaram animados com um mamão papaia para nosso próximo café da manhã, sorvete e diet cola e para me contar que amanhã, sábado (como se fosse nosso domingo) não precisaremos trabalhar e poderemos fazer um passeio. Vamos visitar uma mesquita que foi construída há 500 anos, um templo hindu e a casa de um antigo imperador da região. A foto da mesquita estampa a nota de 50 takas aqui.

Alugaram um carro na cidade mais próxima para nós (vamos eu, o intérprete, o branch manager e a esposa) e amanhã bem cedo sairemos. O preço do passeio saiu a bagatela de 1.000 takas (realmente o Hajid e o Kamal, malandros da cidade, estavam me roubando.

A comida ficou ótima e depois da manhã de hoje sou ainda mais grata à esposa do branch manager por todas as refeições que tenho feito aqui: dá um trabalho dos diabos. O cardápio do dia foi: arroz, batata palito com camarão frito, carne e abóbora. Também achei uma mistura esquisita, mas o gosto estava ótimo. Pedi para almoçar com a família hoje. Geralmente almoçamos apenas eu e o intérprete, na sala que fica na frente dos nossos quartos. A esposa do branch manager adorou a companhia, apesar de não conseguirmos nos comunicar verbalmente. Mas a gente se entende.

Rajshahi - Parte 5 - Mantra do Grameen

O banco é uma religião. O mantra dessa religião resume-se a duas palavras: confiança e disciplina. Eles têm até um grito de guerra, que é repetido no começo e no final de cada reunião de grupo (acreditem, eu decorei!):

“Oykko, kormo, sringkhola, ey amader poth chola
Oykko, kormo, sringkhola, ey amader poth chola
Oykko, kormo, sringkhola, ey amader poth chola”

Significa: União, trabalho, disciplina, é a nossa forma de melhorar.

Contando assim, parece meio ridículo. Ao vivo e dentro do escopo, não é. Mesmo. Precisei me segurar algumas vezes para não cantar com elas.

Voltando para o mantra do Grameen, os clientes precisam confiar que o banco não vai entrar com ação de cobrança contra eles (todos morrem de medo da justiça, do governo e da polícia aqui) e o Grameen precisa confiar que os clientes vão pagar. Curiosamente eles não têm medo do trânsito. Os empréstimos aqui não têm garantia. Aqui também não tem contrato. É tudo anotado numa cadernetinha azul (parece boletim do primário da década de 80) que o cliente recebe do Grameen – acordo meramente “moral”.

Para ser elegível a receber um empréstimo, o cidadão, ou melhor dizendo, a cidadã, precisa cumprir geralmente cinco requisitos (alguns tipos de empréstimos têm algumas variáveis):

1. Não ser proprietária de terra acima de 50 metros quadrados
2. Não ter ativos (casa, moto, galinha, cabra) que tenham valor de mercado acima de 500 mil takas
3. Ser residente na área onde a branch está instalada (mesmo se for sem teto, precisa dormir embaixo de nenhum teto na mesma redondeza, sempre)
4. Os membros do grupo não podem ter relação de sangue
5. Os membros do grupo precisam ter nível de escolaridade e de educação semelhante (para o alto ou para baixo)

Os empréstimos no Grameen são individuais, sem garantia nem aval, mas somente pode receber empréstimo a pessoa que for parte de um grupo de cinco pessoas. As cinco pessoas precisam cumprir com os requisitos listados acima e precisam ter, cada uma, para conseguir o primeiro empréstimo no Grameen, um projeto de geração de renda (pesca, móveis, costura, transporte, melaço, cebola e arroz são os mais comuns atualmente nessa região). O marido (ou o pai ou o filho, na ausência do primeiro) precisa estar de acordo.

O grupo de cinco se auto-escolhe. Não é o Grameen quem seleciona as pessoas, mas as pessoas com interesses semelhantes que se acham. Cada cliente tem a sua idéia de negócio e se o negócio for minimamente viável e lícito, o banco aprova e dá o crédito. Não tem business plan, orçamento ou nada parecido. Mas tem uma ficha cadastral e um cartão de autógrafo. Aqueles que não sabem escrever, passam por um curso antes, com o Grameen, para aprender a escrever seus nomes. O agente do Grameen preenche o formulário com os clientes e vai até a casa deles checar se as informações do cadastro são verdadeiras:

1. Nome do cliente e nome do marido
2. Endereço
3. Idade (eles não sabem preencher esse campo geralmente)
4. Você tem casa própria?
5. Você tem filhos? Quantos?
6. Seus filhos estão na escola?
7. Você tem móveis? Se sim, quantos e quais?
8. Você tem geladeira, máquina de lavar, máquina de costura, e outros apetrechos eletrônicos que tornam a vida da sua adorável esposa um pouco mais fácil?
9. Qual o tamanho do seu terreno?
10. Você tem vaca, cabra, galinhas ou patos?
11. Qual a sua fonte de renda atual?
12. Na sua casa tem luz?
13. O seu marido trabalha?
14. Quanto ele ganha?

O KYC do Grameen Bank deixaria muitos bancos brasileiros com inveja. Eles perguntam tudo o que se pode perguntar para os potenciais clientes e vão até as suas casas checar se é verdade. Todo novo cliente precisa passar por esse procedimento antes de se juntar à família Grameen. Não tem exceção.

Mais de 97% dos clientes do Grameen são mulheres: “elas são mais responsáveis, educam e alimentam os filhos, trabalham firme e pagam em dia”. Os homens ... bom, os homens não vão tão bem no sistema da confiança por aqui ... curiosamente, os homens mandam nas mulheres nesse país. Muitas mulheres pegam empréstimo e tocam os projetos junto com os maridos. Mas são as mulheres que são as responsáveis perante o banco e os demais membros de seu grupo. As mulheres são muito fortes aqui, apesar de todas as restrições e limitações que a cultura e a religião lhes impõem. O Yunus percebeu isso há 30 anos. Impressionante.

Depois que o crédito é concedido, o grupo deve se reunir semanalmente com os agentes do Grameen para contar como estão os projetos recíprocos. Nas mesmas reuniões fazem os pagamentos de juros e principal (sempre semanal) e há o depósito compulsório da poupança. O Grameen ensina a seus clientes que é importante fazer poupança. Assim, sempre que se paga juros de um empréstimo, o cliente faz uma contribuição para a sua poupança. Com parte da poupança o cliente compra ações do banco.

Hoje o Grameen é uma instituição financeira lucrativa, autorizada a operar pelo banco central local, sendo que algo como 96% de seu capital social é detido pelos próprios mutuários. Uma vez por ano há pagamento de dividendos (teve distribuição nos últimos anos). O intérprete diz que a mulherada faz a festa no dia de pegar o cheque dos dividendos. É sempre um dinheiro não esperado e geralmente vai embora rapidinho, para comprar uma vaca para sacrificar e servir em um feriado ou para comprar presentes para a família. Acho que tá tudo certo. Ninguém é de ferro.

O Grameen oferece vários tipos de empréstimos a seus clientes: produtivo básico (geração de renda: famoso auto-emprego), desenvolvimento de microempresa, educação, moradia (no Brasil não é considerado microcrédito o crédito que é concedido para alguém comprar uma casa. Depois de ver o resultado do programa daqui, nossas autoridades deveriam seriamente considerar essa mudança), compra de bicicleta (sem juros!) e compra de motocicleta (5% de juros ao ano).

Cada uma das modalidades de empréstimo tem taxas de juros e prazos de pagamento específicos para os projetos dos clientes, mas o processo de concessão, reunião semanal, pagamento, poupança e monitoramento são quase os mesmos. Tudo é feito dentro do grupo, para que todos possam testemunhar os objetivos de quem pega o empréstimo e também “apoiar” o projeto. Para conseguir empréstimo para montar uma microempresa, educação ou para comprar uma casa (valores mais altos), o mutuário tem que ser membro de um grupo por 2 anos e tem que ter um bom histórico de pagamento. Ainda, alguns poucos empréstimos muito altos para projetos de microempresa de vez em quando contam com garantia (mas é a exceção da exceção).

Se o grupo todo vai bem, e faz os pagamentos em dia, todos os clientes conseguem limites maiores de crédito no próximo empréstimo. Se alguém do grupo não vai tão bem, os limites de crédito dos demais membros do grupo podem ser reduzidos. Todo mundo trabalha para o coletivo: sistema ganha ganha.

Além dos empréstimos, também existem seguros diversos, poupanças e certificados de depósito com juros variados, disponíveis para os mutuários e para o público em geral: entre 8% e 12% ao ano, dependendo do tempo de investimento.



Uma das várias reuniões de que participei


Para provar que eu estava lá!

***
 
A atividade principal do dia aqui no treinamento do Grameen é conversar. Na verdade, eles conversam e eu escuto. Eles riem, apontam, chegam perto, encaram. Escuto estórias o dia todo. Tem cinco perguntas que eu preciso responder toda vez que conheço alguém aqui (mulher, criança ou homem):

1. Você é casada?
2. Você precisou pedir autorização ao seu marido para viajar?
3. Você tem filhos?
4. Qual a sua profissão?
5. Como você chegou aqui (qual o meio de transporte)?

O intérprete já decorou as respostas e se prontifica. Todas as vezes eles riem ao escutar as respostas, com a mão na boca. Divertido.

A metodologia Grameen é repetida diariamente, cada vez um detalhe mais detalhado, um novo ângulo, um novo caso. Eles são muito, mas muito, organizados. Trabalho de formiguinha. Tudo é feito na mão, tudo checado, re-checado, registrado, anotado e guardado. E tem conversa. Disciplina. E mais conversa.

Há também políticas institucionais diversas, programa de avaliação, reunião de feedback, gestão e coaching do time de funcionários, prêmios para os melhores do ano (alguns em dinheiro, entregues pelo próprio Yunus) e promoção a cada três anos (e eles acham bem do bom). A maioria dos funcionários do Grameen faz carreira aqui. Conheci gente que está com o Yunus desde o começo de tudo. Eles também têm auditoria interna (que responde apenas ao Yunus) e auditoria independente externa.

O branch manager e os outros funcionários da branch (cada qual com uma função super específica) tomam conta dos clientes como se fossem parte da família: querem saber como estão os projetos, o marido, os filhos, falam com os vizinhos (para checar a história do cliente) e com o marido (sempre o marido aqui tem a palavra final).

Essa gente valoriza gente, e sabe como ninguém conversar e motivar seus clientes e funcionários. O tópico mais importante aqui é “bom relacionamento entre pessoas”. O banco é, acima de tudo, humano. Sabem o slogan “nem parece banco” que todos nós conhecemos no Brasil? Deveria ter sido vendido para o Grameen Bank. Estou convencida de que este é o segredo do sucesso deles. Os demais procedimentos não são muito diferentes de qualquer banco ou empresa minimamente profissionalizada. A administração do banco é simples e organizada, e eu diria que a fórmula é quase ingênua. Mas está dando certo: desde a sua fundação, o banco deu lucro em quase todos os seus anos de operação. Devem existir problemas, sem dúvida, mas o tempo que passarei aqui não será suficiente para diagnosticar isso.

Os funcionários do Grameen trabalham muito para os padrões de Bangla: 10 a 12 horas por dia. O intérprete acha que é desestimulante. “Não dá tempo de fazer nada além de trabalhar. Não acho certo”.

O branch manager ganha 20 mil takas por mês. Segundo o intérprete vive-se bem com esse salário na vila. Na cidade não dá. “Lá preciso ganhar ao menos 40 mil takas ao mês para viver bem. Sem grandes confortos, mas bem”.

O intérprete é um free lancer do Grameen e não tem trabalho o mês todo. Está ficando cansado da falta de estabilidade, mas como não tem diploma de faculdade não consegue arranjar um emprego com carteira assinada.

Descobri que o maior aprendizado dessa viagem vai ser escutar. Não sou muito boa em ouvir e ficar quieta. Aqui não tem opção (eles não me entendem mesmo) e o relógio definitivamente anda mais devagar do que em São Paulo. O remédio é paciência. Recomendo para outros advogados de mercado de capitais que são ansiosos como eu.

Rajshahi - Parte 4 - Fatos e Casos

No Grameen não tem guarda. As pessoas pagam suas dívidas nas reuniões de grupo, no meio de um monte de gente, os funcionários circulam com o dinheiro do banco pra lá e pra cá, e aqui na sede em que eu estou hospedada tem dinheiro guardado. Nada de guarda, segurança, arma. Eles se orgulham disso. Em toda a sua história, o Grameen sofreu um único assalto, há 5 anos atrás. Nunca mais. O Professor Yunus agora anda com um segurança ao seu lado – o governo insistiu que não era seguro para ele sair na rua sem proteção.

“Eu não tinha pensado nisso, mas corremos o risco de sermos assaltados nessa sede?”, perguntei ao intérprete, ativando a minha neurose paulistana.

“Não”.

Foi convincente o suficiente. Esqueci o assunto.

***

Outro dia escutei uma história curiosa e irritante: várias ONGs entram no país, dão crédito para os clientes do Grameen, sem qualquer disciplina ou processo, os clientes ficam com muito dinheiro na mão (para os padrões daqui), param de trabalhar ou começam a gastar dinheiro com bobagem. Perdem as reuniões de grupo e eventualmente acabam deixando o programa. Depois de um, dois, três anos, a ONG vai embora, se instalar em algum país atingido por um tsunami ou terremoto. A fonte de dinheiro fácil do cliente vai embora, ele cai na miséria de novo. E volta a procurar o Grameen.

O pessoal do Grameen respeita o trabalho das ONGs e diz que muitas fazem trabalho sério. Outras gastam seu dinheiro de forma estúpida e irresponsável, não educam ou ajudam o povo, e vão embora, do dia para noite. O pior, é que eles e os sponsors deles nem sabem disso.

***

O ritual do meu banho aqui é trabalhoso e engraçado. Acordo perto das seis da manhã (luz no quarto ...), e ainda dentro da tela de mosquitos passo repelente para chegar até o chuveiro. Parece exagero passar repelente para ir tomar banho, mas no banheiro, de madrugada, tem sempre um grupo considerável de insetos traiçoeiros e nojentos e pernilongos famintos me esperando. O banho é gelado. E tem pouca água, mas a água é clara, o que é um alívio. Toda vez que vou no banheiro daqui agradeço muito por ter trazido as minhas havaianas. O espelho do banheiro é do tamanho de uma foto 15 x 18 e está meio quebrado. A toalha, como contei, é na verdade um xale para cobrir o meu cabelo. Todo dia ela fica pendurada no sol (que não falta aqui), secando para o dia seguinte. Na volta ao quarto, pulo para dentro da tela de insetos novamente, para uma nova sessão de repelente. Pronto. Depois desses passos redundantes, estou pronta para me trocar, pentear o cabelo, escovar os dentes (com água mineral) e ir procurar o intérprete para esperar pelo café da manhã.

O café da manhã aqui geralmente tem água, chá, ovo, mingau (muito bom, e parece um arroz doce com leite condensado, mas no lugar do arroz eles colocam um macarrãozinho) e um tipo de panqueca local (frita). De vez em quando tem banana e como eles descobriram que eu gosto de bolo, eles compraram um no bazar (é como eles chamam a vila das lojinhas aqui perto) no meu terceiro dia e desde então esperam que eu coma ao menos um pedaço toda manhã. Meus anfitriões, homens e mulheres, são extremamente gentis, solícitos, preocupados e educados. Fico até constrangida com a serventia exagerada deles. Eles acham que eu sou muito alta, magra (e branca), e estão sempre insistindo para eu comer mais e mais. Me peguei mais de uma vez escondendo comida no bolso da calça para não precisar comer e não ser rude com o pessoal daqui. Parece maluquice, mas eles não aceitam não como resposta e ficam ofendidos se você não experimenta a comida deles. E eles me trazem cada coisa para experimentar ... Honestamente, acho que eu tenho sido valente ao provar as maiores bizarrices que o povo daqui come, mas o problema são as mãos que carregam a comida ... de vez em quando não dá para encarar.


Café da Manhã!

Snack da tarde na ...

biboca local ...

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Para almoço temos sempre arroz (eles comem muito arroz por aqui), algum tipo de legume ou vegetal (espinafre, abobrinha, brócolis, cenoura, batata doce) sempre super apimentado ou com curry (delícia) e alguma proteína: frango, peixe ou carne (com mais pimenta).

Durante o dia todo toma-se chá, com gengibre e melaço. Geralmente não tenho fome no final do dia e tomo apenas um chá com torradas antes de ir para o meu quarto. O jantar é servido ao lado do quarto (o intérprete sempre come a minha parte e a parte dele) e é bem parecido com o cardápio do almoço.

Parece que a fome que devastou esse país no início da década de 70 criou uma necessidade inconsciente das pessoas daqui de comer sempre em quantidade exagerada. Eles comem muito e servem porções dignas de uma cantina paulistana. Pelo jeito estou num lugar privilegiado para os padrões rurais de Bangladesh, mas é bom ver que a vila produz alimentos suficientes para todos. Aqui, diferentemente da cidade, não vi ninguém pedindo dinheiro ou com cara de doente. Todo mundo trabalha muito no campo, mas todos parecem saudáveis. As crianças estão na escola e parecem bem também. São todas serelepes e risonhas, fazendo arte por todo lado.

Rajshahi - Parte 3 - O intérprete

O interprete tem 35 anos. Nasceu em Dhaka. É muçulmano, mas diz que ficou bem mais religioso depois que a noiva, Jui, faleceu. Isso faz pouco mais de um ano. Ela tinha 28 e eles iam se casar em dois meses e morar nos EUA. Era bem bonita, eu vi a foto. A coitada teve apendicite em Dhaka, Mirpur, pertinho da sede do Grameen. O anestesista errou a dose e o resto é história. Me fez lembrar do infectologista em São Paulo, que visitei quando me programava para vir para cá:

“Marina, com essas vacinas, esses antibióticos e esses cuidados básicos de higiene, você estará protegida e nada de muito grave pode acontecer. Bom ... você pode ter apendicite. Mas tenho certeza que em Dhaka não se morre de apendicite.”

Então ...

Ele estava trabalhando como intérprete nos EUA quando do ocorrido e chegou para o enterro. A família da noiva aceitou fazer um acordo com o médico culpado, e desistiu da ação de responsabilidade civil na justiça. O intérprete fez escândalo, foi nos jornais, reclamou, mas não teve jeito. Ninguém foi responsabilizado pela morte da noiva. Ele brigou com a família da noiva e nunca mais os viu. No mesmo ano, os pais dele morreram: a mãe estava doente faz tempo (diabetes, a maior causa de morte em Bangla) e o pai não resistiu de tristeza poucos meses depois. Sobraram ele e cinco irmãs, sendo que três são casadas. Ele disse que pensa na noiva todo dia.

Falei para ele mudar de país e tentar um cenário diferente daqui. Diz que não conseguiria ir embora de Dhaka, é a cidade dele. Quem bom que todos os habitantes de Dhaka não resolvem migrar para o resto do mundo e realmente gostam de morar lá – 15 milhões de pessoas amontoadas, respirando um ar pesado e marrom. Realmente a pessoa tem que estar desesperada para achar que lá é melhor que um lugar como aqui. Mas, de novo, o intérprete disse que tem lugar no norte do país que é mais desastroso que Dhaka e por isso as pessoas continuam indo para a pequena grande cidade.

Voltando ao assunto “possibilidade de mudança”, o intérprete disse que não teria dinheiro para ir embora, mesmo se quisesse. Resolvi que vou arranjar um jeito de ajudar o intérprete até ir embora daqui. Ele quer trabalhar para a ONU e não consegue nem uma entrevista lá, pois não tem contatos. Ele é muito competente e tem o inglês perfeito – aprendeu sozinho, o que é impressionante. Alguém conhece alguém na ONU de Dhaka para dar uma referência para mim?

O intérprete entrou na faculdade três vezes e nunca conseguiu terminar. “Sempre alguma coisa acontecia quando eu começava um curso e eu tinha que largar. A última tentativa foi quando a minha noiva morreu. Não vou voltar a tentar muito cedo”.

O problema é que em Dhaka o índice de desemprego é superior a 40% e quem não tem um diploma tem muita dificuldade para arranjar emprego. Quem consegue o diploma também. O nível de analfabetismo em Bangla é perto de 20%.

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O intérprete disse que quem não casa aqui fica sozinho na velhice. Ele tem medo de ficar só. Das duas irmãs não casadas, uma tem 40 anos e é vice-presidente de um banco local. Ela é independente, bem sucedida e resolveu não casar. “Ela é feliz agora, mas vai ficar velha sozinha. E vai ser triste. Nesse país, mulher que não tem família, fica isolada, pois as relações de amizade para elas são restritas. Não é como nos EUA ou no Brasil. Aqui, as mulheres casadas que fazem parte da mesma família estão sempre juntas e se apóiam”. Devo admitir que elas estão sempre sorrindo aos bandos. Mas ainda não entendi se elas são felizes ou se elas simplesmente fazem o que podem. De qualquer jeito, bela lição de vida.

Agora falando tanto de homens quanto de mulheres, o intérprete me diz: “quem não casa não tem charme na vida”. Não deixa de ser irônico, considerando a aparente relação de opressão entre os maridos e suas esposas (devo confessar que o branch manager e sua esposa parecem ser um casal bem feliz).

“Se você quiser casar com alguém que não seja da sua religião, pode?”.

“Sim, desde que eu tenha procurado uma moça da minha religião e não tenha encontrado ninguém de quem eu goste. Nesse caso eu posso casar com uma cristã ou judia. Hindu não”.

“Qual a razão”?

“Os hindus acreditam em muitas divindades. Só posso casar com alguém que acredite em apenas um Deus, como eu”. Pensei se deveria intervir e colocar o meu ponto de vista: "mas toda religião, no fundo, se baseia no mesmo princípio universal ...".  Depois achei que uma brasileira que está no interior de Bangladesh não precisa ser intrometida a esse ponto e tentar convencer um muçulmano que casar com hindus não tem problema. De qualquer forma, que pena para o intérprete, pois vi mulheres hindus belíssimas e elas têm os cabelos mais incríveis que se pode imaginar.

Ele nunca vai admitir isso, mas acho que o intérprete é um muçulmano em busca de amor romântico ocidental.

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“Younus, me explica como funciona o casamento muçulmano”.

“Nós não achamos que a mulher é menos do que o homem. Ela pode fazer tudo o que os homens fazem, mas apenas devem cobrir a forma do corpo e o cabelo”. Não consigo entender a parte de cobrir o corpo e o cabelo como uma relação de igualdade, mas vamos lá ...

“Quando um homem quer casar com uma mulher não tem que pagar dote de nenhum dos lados”. “Na verdade, o marido dá uma jóia para a noiva antes do casamento e antes de encostar nela pela primeira vez lhe dá uma quantia em dinheiro. Pode ser 100 mil taka, pode ser 200 mil taka, pode ser 1 milhão de taka, depende da capacidade financeira do marido. Esse dinheiro é só da mulher e ela pode usar em qualquer momento da sua vida, principalmente se o marido lhe faltar e ela estiver em dificuldades financeiras”. Véu caro esse...

Younus em momento raro de descontração ... peguei ele no pulo ...